Dr. Fernando Arturo

Cardiologista em São Paulo

Pressão alta mesmo tomando remédio: por que isso acontece?

Entenda por que a pressão pode continuar elevada apesar do tratamento, quando isso pode indicar hipertensão resistente e por que investigar a causa é tão importante quanto simplesmente aumentar os medicamentos.
Homem medindo a pressão arterial em casa com aparelho digital ao lado de comprimidos, ilustrando a dúvida sobre pressão alta mesmo tomando remédio.

Imagine a seguinte situação: Roberto, 57 anos, trata hipertensão há alguns anos. Todos os dias pela manhã toma seus medicamentos e, durante muito tempo, sua pressão permaneceu bem controlada.

Nos últimos meses, porém, algo mudou.

Ao medir a pressão em casa, passou a encontrar valores elevados com frequência. Em uma consulta, outro medicamento foi acrescentado. Mesmo assim, as medidas continuaram acima da meta.

Surge então uma dúvida bastante comum:

“Se eu já tomo remédio, por que minha pressão continua alta? Será que o medicamento parou de funcionar?”

Nem sempre.

Existem várias razões pelas quais a pressão arterial pode permanecer elevada mesmo durante o tratamento. Algumas são relativamente simples de corrigir. Outras exigem uma investigação mais detalhada para identificar condições que estejam dificultando o controle da hipertensão.

Por isso, quando a pressão permanece alta apesar dos medicamentos, o mais importante não é simplesmente aumentar a quantidade de comprimidos, mas entender por que o tratamento não está atingindo a meta esperada.

Pressão alta tomando remédio significa que o tratamento não está funcionando?

Não necessariamente.

O controle da pressão arterial depende de vários fatores ao mesmo tempo: quais medicamentos estão sendo utilizados, suas doses, a regularidade do tratamento, os hábitos de vida e até a presença de outras doenças capazes de elevar a pressão.

Além disso, a própria medida pode não representar exatamente o comportamento habitual da pressão.

Algumas pessoas apresentam valores elevados apenas no consultório, fenômeno conhecido como efeito do avental branco. Em outras situações, erros na técnica de aferição — como utilizar um manguito inadequado para o tamanho do braço — podem superestimar os valores.

Por esse motivo, antes de concluir que alguém possui uma hipertensão difícil de controlar, é necessário confirmar que a pressão realmente permanece elevada fora do consultório e revisar cuidadosamente o tratamento em uso.

A Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial de 2025 destaca justamente a necessidade de excluir essas situações de pseudorresistência antes de estabelecer o diagnóstico de hipertensão resistente.

Por que a pressão pode continuar alta mesmo tomando medicamentos?

Existem várias possibilidades.

1. O tratamento pode não estar sendo utilizado de forma regular

A hipertensão geralmente não causa sintomas. Isso faz com que algumas pessoas esqueçam doses, interrompam medicamentos quando a pressão melhora ou deixem de utilizá-los devido a efeitos colaterais.

Também é comum haver dificuldades quando o esquema envolve muitos comprimidos ou diferentes horários ao longo do dia.

Isso não deve ser encarado como uma falha do paciente. Para o médico, entender exatamente como os medicamentos estão sendo utilizados é uma parte essencial da avaliação.

Quanto maior a complexidade do tratamento, maior pode ser a dificuldade de mantê-lo de maneira consistente. Por esse motivo, quando possível, combinações de medicamentos em um único comprimido podem facilitar a adesão ao tratamento.

2. As doses ou a combinação dos medicamentos podem não ser as mais adequadas

Existem diferentes classes de medicamentos para hipertensão, e elas atuam por mecanismos distintos.

Em alguns pacientes, aumentar apenas a dose de um medicamento produz menos benefício do que utilizar uma combinação adequada de diferentes classes.

Também pode ocorrer o que chamamos de inércia terapêutica, quando o esquema permanece durante muito tempo com doses insuficientes ou sem os ajustes necessários, apesar de a pressão continuar acima da meta.

Por isso, o tratamento deve ser reavaliado periodicamente.

3. O excesso de sal pode estar dificultando o controle

O sódio exerce papel importante no controle da pressão arterial.

Mesmo quem não acrescenta muito sal à comida pode consumir grandes quantidades de sódio por meio de alimentos industrializados, embutidos, temperos prontos, refeições de restaurantes, salgadinhos, queijos e outros produtos processados.

Em pessoas com hipertensão resistente, a retenção de sódio e água pode ter participação particularmente importante.

A redução do consumo de sódio, o controle do peso, a prática regular de atividade física e a moderação do consumo de álcool continuam fazendo parte do tratamento mesmo quando o paciente já utiliza medicamentos.

4. Outros medicamentos podem aumentar a pressão

Esse é um ponto frequentemente esquecido.

Alguns medicamentos utilizados para tratar outros problemas de saúde podem elevar a pressão ou reduzir a eficácia do tratamento anti-hipertensivo.

Entre eles estão alguns:

• anti-inflamatórios;

• descongestionantes nasais;

• anticoncepcionais contendo hormônios;

• corticoides;

• medicamentos estimulantes;

• determinados antidepressivos;

• imunossupressores;

• suplementos e produtos naturais específicos.

Por isso, durante a consulta, é importante informar todos os medicamentos, vitaminas e suplementos utilizados, mesmo aqueles comprados sem receita.

A American Heart Association também destaca medicamentos de uso comum, como anti-inflamatórios e descongestionantes, entre os possíveis fatores que dificultam o controle da hipertensão.

5. Apneia do sono pode manter a pressão elevada

Ronco intenso, pausas na respiração durante o sono, sono pouco reparador e sonolência durante o dia podem sugerir apneia obstrutiva do sono.

Durante os episódios de apneia, ocorrem alterações na oxigenação e uma ativação repetida do sistema nervoso simpático, favorecendo elevações da pressão arterial.

A relação é especialmente importante nos pacientes cuja hipertensão permanece difícil de controlar.

Na Diretriz Brasileira de Hipertensão de 2025, a investigação de apneia obstrutiva do sono é recomendada na hipertensão resistente justamente por sua elevada prevalência nesse grupo.

6. A hipertensão pode ter uma causa secundária

Na maioria das pessoas, a hipertensão é chamada de primária ou essencial, ou seja, resulta da interação entre predisposição genética, idade e fatores ambientais.

Mas em alguns pacientes existe uma doença específica contribuindo para a elevação da pressão. Nesses casos, falamos em hipertensão secundária.

Entre as condições que podem estar envolvidas estão:

• hiperaldosteronismo primário;

• doença renal;

• estreitamento das artérias dos rins;

• apneia obstrutiva do sono;

• alterações hormonais das glândulas suprarrenais, em situações específicas.

Identificar uma dessas causas pode modificar completamente a estratégia de tratamento.

A American Heart Association também recomenda procurar causas hormonais, doença das artérias renais, apneia do sono e outros fatores quando a hipertensão permanece difícil de controlar.

Afinal, o que é hipertensão resistente?

Hipertensão resistente não significa simplesmente “estar tomando remédio e continuar com a pressão alta”.

De acordo com a Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial de 2025, o diagnóstico envolve pressão persistentemente acima da meta apesar do uso adequado de três ou mais classes de medicamentos anti-hipertensivos com mecanismos complementares, em doses máximas recomendadas ou toleradas, após excluir situações que podem simular resistência ao tratamento.

Pacientes que precisam de quatro ou mais medicamentos para manter a pressão controlada também são classificados dentro desse grupo.

Isso significa que, antes de receber o diagnóstico de hipertensão resistente, é fundamental confirmar três pontos:

a pressão realmente está elevada, o esquema medicamentoso está adequado e os medicamentos estão sendo utilizados corretamente.

Como saber se a pressão realmente está descontrolada?

Uma medida isolada no consultório nem sempre responde a essa pergunta.

Por isso, exames que avaliam a pressão fora do ambiente médico podem ser extremamente úteis.

MAPA — Monitorização Ambulatorial da Pressão Arterial registra a pressão durante aproximadamente 24 horas, incluindo o período do sono.

Já a MRPA — Monitorização Residencial da Pressão Arterial utiliza medidas padronizadas realizadas em casa durante vários dias.

Nos casos de suspeita de hipertensão resistente, a Diretriz Brasileira recomenda preferencialmente o MAPA, quando disponível, ou a MRPA para confirmar se a pressão permanece realmente fora da meta.

Isso ajuda a evitar que um paciente receba medicamentos adicionais quando, na realidade, sua pressão está elevada apenas durante a consulta.

Como o cardiologista investiga uma pressão que continua alta mesmo com remédios?

A investigação começa pela história clínica.

É importante entender quais medicamentos estão sendo usados, suas doses, horários, possíveis efeitos colaterais e se existem outros remédios ou suplementos capazes de aumentar a pressão.

Também são avaliados fatores como alimentação, consumo de sal e álcool, atividade física, peso corporal e qualidade do sono.

Dependendo do caso, podem ser solicitados exames para avaliar função renal, eletrólitos e possíveis alterações hormonais, além de exames destinados a pesquisar lesões que a hipertensão possa ter provocado no coração, rins ou vasos sanguíneos.

Quando há suspeita clínica, a investigação pode ser direcionada para causas específicas, como hiperaldosteronismo, doença das artérias renais ou apneia do sono.

Esse é um dos motivos pelos quais simplesmente adicionar medicamentos sem entender o mecanismo do descontrole nem sempre é a melhor estratégia.

É possível controlar a hipertensão resistente?

Se você utiliza medicamentos para hipertensão e continua encontrando valores elevados de maneira repetida, vale investigar o motivo.

Isso é especialmente importante quando:

Hipertensão resistente está associada a maior risco cardiovascular e renal quando comparada à hipertensão adequadamente controlada.

Por isso, uma pressão persistentemente elevada apesar do tratamento não deve ser simplesmente aceita como “minha pressão é assim”.

Na maioria das vezes, existe uma explicação que pode ser identificada.

Às vezes, o problema está na combinação dos medicamentos. Em outros casos, no excesso de sal, em outro medicamento utilizado pelo paciente, na apneia do sono ou em uma causa secundária de hipertensão.

O objetivo da avaliação não é apenas baixar um número no aparelho, mas identificar a estratégia mais adequada para reduzir, a longo prazo, o risco de infarto, AVC, insuficiência cardíaca e doença renal.

Se você já utiliza medicamentos para hipertensão e sua pressão continua frequentemente acima da meta, uma avaliação cardiológica pode ajudar a identificar a causa do descontrole e definir um tratamento individualizado.

Perguntas

Frequentes

Tomo o remédio todos os dias e minha pressão continua alta. Isso significa que o medicamento parou de fazer efeito?

Não necessariamente.

Uma pressão persistentemente elevada pode ocorrer por diferentes motivos: dose inadequada, necessidade de combinar outras classes de medicamentos, excesso de sódio na alimentação, interação com outros remédios, efeito do avental branco, apneia do sono ou alguma causa secundária de hipertensão.

Antes de modificar o tratamento, é importante identificar qual desses fatores está presente.

Minha pressão subiu. Posso tomar uma dose extra do meu remédio?

Não é recomendado fazer ajustes por conta própria.

O efeito e a duração de cada medicamento são diferentes. Dependendo do medicamento utilizado, tomar uma dose adicional pode provocar queda excessiva da pressão, alterações da frequência cardíaca, distúrbios de eletrólitos ou outros efeitos adversos.

Se medidas elevadas estiverem se repetindo, o ideal é registrar os valores e discutir o ajuste do tratamento com seu médico.

Estou tomando três remédios e minha pressão continua alta. Já tenho hipertensão resistente?

Não obrigatoriamente.

Antes de confirmar hipertensão resistente, é necessário verificar se as classes e doses dos medicamentos estão adequadas, se o tratamento está sendo utilizado regularmente, se a técnica de medida está correta e se existe efeito do avental branco.

O MAPA ou a MRPA costuma ser utilizado para confirmar se a pressão permanece realmente elevada fora do consultório.

O MAPA pode mostrar por que meu remédio para pressão não está funcionando?

O MAPA não identifica sozinho a causa do descontrole, mas fornece informações fundamentais sobre o comportamento da pressão durante as atividades habituais e durante o sono.

Ele pode mostrar se a pressão está realmente elevada ao longo do dia, se existe efeito do avental branco e se o controle durante o período noturno está adequado.

Essas informações ajudam o cardiologista a interpretar melhor o tratamento e decidir quais etapas da investigação são necessárias.

Você toma medicamentos para pressão e, mesmo assim, continua encontrando valores elevados?

Isso merece ser investigado!

Sobre o Dr. Fernando Arturo

O Dr. Fernando Arturo (CRM 134.872 | RQE 53509) é médico cardiologista e ecocardiografista, com formação pela Universidade de São Paulo e especialização pelo Instituto do Coração — InCor.

Com atuação voltada à prevenção cardiovascular, à investigação diagnóstica e ao tratamento individualizado das doenças do coração, realiza consultas particulares e exames cardiológicos na Vila Mariana e no Einstein Chácara Klabin.

 
Dr. Fernando Arturo, médico cardiologista formado pela USP e especialista pelo InCor, sorrindo de jaleco branco em seu consultório na Vila Mariana.